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Não confundir com Stendhal. É mesmo Estendal, esse apuradíssimo instrumento de aferição civilizacional.
O céu entornava o lusco-fusco vagarosamente sobre a cidade. O eléctrico arfava, cansado, ladeira acima. As luzes das ruas e os néons das lojas iam-se acendendo para receber a noite e reflectiam-se nas gotículas peganhentas que a morrinha deixava na calçada. Na paragem, várias pessoas, encolhidas e desconsoladas, olhavam com inveja a confraria forçada onde não conseguiram entrar.
A D. Alzira olhou para fora e teria suspirado de alívio, se espaço houvera para os seus pulmões se encherem de ar, ali apertadinha onde se encontrava, entre o passageiro da frente e a porta automática que se fechara peremptoriamente atrás si na paragem anterior.
Por ali se foi aguentando e só um bom pedaço mais tarde, quando conseguiu assomar à frente da carruagem, vislumbrou a vizinha Lurdes, sentada no terceiro banco da ala esquerda. E logo lhe lançou um sonoro “’tão, vizinha, como vai a vida?”. A vizinha Lurdes olhava sem ver, confinada aos seus pensamentos e indiferente ao linguajar asiático dos turistas que tagarelavam em segmentinhos empolgados e enérgicos à sua volta.
Assim que ouviu a voz amiga da vizinha, a D. Lurdes procurou-a por entre o emaranhado humano do eléctrico. Logo que a viu soltou um “ai vizinha!”, mesmo lá do fundo das entranhas, e os seus olhinhos pequeninos e olheirentos encheram-se de lágrimas. “Então? Então?”, dizia de lá a vizinha Alzira, “É a sua Luisa? Não está melhor?”. “Venho da visita… encontrei-a muito caída, vizinha, muito caidita… e ainda a radioterapia vai na terceira sessão”, choraram-lhe os olhos e a voz.
O gume da palavra ‘radioterapia’ furou as bolhas diáfanas onde flutuavam os pensamentos dos passageiros. “Ó D. Lurdes, tem de ter calma, vai tudo correr bem, vai ver… ela ainda é rapariga nova, há-de ter força e ultrapassar esta má fase. O ‘problema’ dela é no útero, não é?”, continuava a D. Alzira lá da ponta da carruagem. E ao ver a cabeça da D. Lurdes a confirmar, continuou: “olhe, até lhe digo que é um bom sítio para se ter uma ‘coisa dessas’. Já se fosse nos ovários não lhe dizia o mesmo… mas no útero! Não vê a minha tia Alice? Coitadinha… o susto que a gente apanhou, já vai para trinta anos e ainda lá está, quase nos noventa!”
De onde se encontrava, a D. Alzira reparou nas várias cabeças que concordavam com ela, movendo-se encorajadoramente para cima e para baixo e a sua empatia ganhou ânimo. “Até lhe digo, vizinha: se eu tivesse que ter ‘uma doença dessas’ era nesse sítio que a preferia.” Uma senhora no banco de trás, ao perceber o ar descrente da D. Lurdes, declarou: “Olhe que tem toda a razão, a sua amiga! Conheço várias pessoas que tiveram ‘esse problema’ e estão todas benzinho, graças a Deus! Eu também, se tivesse que ser, era onde escolhia”, rematou.
“Ou isso ou na tiróide. Também é um bom sítio”, discorreu uma velhota do banco do fundo, quase escondida por um senhor gordo de gabardina que se equilibrava na sua frente. “Eu fui operada, tiraram-me a tiróide, fiz uns tratamentos e cá estou, ainda a pôr um pé à frente do outro, como Deus manda! E não me faz cá falta nenhuma, a tiróide!”, retorquiu como quem prescinde de um luxo inútil.
“Bem, na pele também pode não ser mau”, contribuiu o senhor da gabardine, “dependendo do sítio… se for assim num dedo, ou num local onde passe menos sangue”, completou, confiante perante os acenos de concordância que o seu comentário suscitou. E todos largaram a opinar sobre qual o melhor sítio para ter ‘uma doença daquelas’, numa conferência espontânea e desorganizada que se alongou muito para além das Escolas Gerais, onde as duas vizinhas se apearam.
O meu amigo, Britânico de Hampstead (onde ninguém esboça um sorriso a ninguém antes de um período inicial probatório de duas décadas e meia) analisava, perplexo, o nível de interacção espontânea que se formou ali em menos de um fósforo. Quando finalmente consegui convencê-lo de que toda aquela cavaqueira era inopinada e fortuita, exclamou: “You bloody outgoing fellows, aren’t you, though?” Anuí com bonomia. E também fingi que não ouvi quando inquiriu o tema da conferência. Não vi razão para confundi-lo ainda mais.